Quem mantém um blog pessoal em 2024? Fetichismo Otaku, Apagamento Indígena e formação da personalidade Gen Z nos anos 2010

 Introdução

    Minha presença digital esteve intimamente conectada com o conteúdo escrito por outras pessoas nesta plataforma (blogspot e também wordpress), principalmente ao longo da década passada. 

    Cecy Aguilera Blog, Biblioteca de Ponyville, Creepypasta Brasil, Zero Corpse, Brazzangs, os blogs da Narumi Katayama, o "movimento" Ana & Mia, os blogs de guias do AD (Amor Doce), a Liga dos Betas, os blogs pessoais de tantas pessoas (Escreva, Lola, Escreva) fizeram parte da minha recoleção de momentos na internet. Em última instância, tais momentos e referências são grande parte de mim, pois minha geração é "nativa digital". 

Eu gostaria de tomar um tempo desse post de introdução fazendo menção aos principais elementos dessa saga que caracteriza muito de uma vivência específica, que tenho certeza, não pode ser exclusivamente minha. 

    Creio ser sintomático o nome que breve escolhi. Mipibu Nexus; nexus, a ideia emprestada do videogame Yume Nikki de uma sala de espera onde você pode acessar uma miríade de portas para mundos muito diferentes uns dos outros, todas reunidas nesse mesmo entre-espaço. Essa é uma palavra grega que provavelmente já foi usada com sentido parecido antes, mas a minha referência é enfaticamente essa. Mipibu, o nome do pequeno município em que vivo (e vivi). Dentro de um lugar que me soa estreitamente singular (o meu) existe algo de universal... ou, pelo menos, de múltiplo. 

O receio em escrever

    É inevitável que eu escreva num certo tom reminiscente de diário, de confissão, um tonzinho que denuncia (o que hoje sei ser mais uma sensação interna do que uma interpretação inevitável dissolvida no texto) a minha prolixidade. Me sinto na obrigação de pedir desculpa mesmo com a possibilidade de eu estar sozinha aqui, porque nasce hoje um lugar onde eu posso escrever, e com ele um lugar onde rotineiramente estará plasmada a minha chatice! 

    É insano como temos o poder de navegar o leito do texto, mas ainda assim a liberdade de dizer exatamente o que queremos nos escapa. Eu tenho a primazia de escolher as palavras, são minhas para colocar, blocadas, mas o seu rumo não é nosso. Enfim, divagações como essas, de materialidade vaga a não ser para a pessoa as experimentando (e ainda por cima provavelmente daqui a pouco eu também não irei entender, de todo) tenderão a ser comuns.  

Me esforço pra adicionar alguma economia no texto. Em verdade eu nunca escrevi com honestidade. Digo, eu já escrevi fanfics antes, e com isso eu pensava no leitor (um pouco) mais que agora. Eu já escrevi redações escolares, que eram bem recebidas, e já escrevi textos argumentativos para concursos, que foram medíocres. Parece que minha personalidade é um impecilho à comunicação efetiva.

    Mas Meu Amigo Pedro (sempre um Pedrinho) me contou que quanto mais damos vazão a essas associações menos elas podem falar de nós, coisa que provavelmente fariam se se tornassem internalizações aglutinadas dentro da gente. Pedras indistintas no fundo da consciência. Gosto de falar, é uma delícia poder falar tanto assim, hehe. Eu não quero ser uma palavra na boca das minhas palavras não ditas, melhor jogá-las pra fora hehe sou o demiurgo maluco de bobaginhas (todos somos).

Um surrealismo nipo-sertanejo digital

    Tirando isso do caminho, estamos numa direção que promete ainda mais singularidades. Vamos começar pela mescla peculiar: contato intenso (roçamento intenso de interfaces metafísicas!!) com a cultura japonesa; numa fase em que nos faltava (a todos aqui? ao menos todas as pessoas a quem falo na minha cabeça) senso crítico, mesmo. Ascendência indígena distante, fenótipos difusos. "Santo Deus (leia na voz do Rodrigo Góes), menina, alguém precisa dizer isso!". Estou protegida aqui então não vejo necessidade de fazer segredo. Não sou alguém de evitar os tópicos sensíveis. Não busco amaciar a complexidade das minhas neuroses, então vamos lá:

    A verdade é que muitas jovens foram muito influenciadas pela cultura otaku nesse período de 2000 - até os dias atuais, num sentido geminal na formação de sua identidade. [Sim, para mim a questão é centralmente feminina, embora jamais exclusivamente]. O resultado, que pode ser acachapante, disso, é uma identidade também difusa. Objetivamente falando, eu também sou autista e isso por si só resulta em sentimentos frequentes de alienação. 

Se não pela ascendência indígena desconhecida, se não pelo fenômeno de massas que é o animê hoje em dia, digamos apenas (de forma mais materialmente embasada) que a juventude brasileira tem a boca cheia com o novo soft power do leste asiático.

    Me falta dados para afirmar esse link de forma consequente: apagamento indígena e busca por uma conexão (a um nível étnico mesmo?! para quem domina um pouco da discussão sobre etnicidade) com as culturas do leste asiático, por terem se tornado cada vez mais acessíveis e em particular a japonesa, devido também à imigração japonesa no Brasil e o fato que esses grupos são hoje parte ativa e relevante da nossa cultura. No entanto eu apostaria muito nessa combinação. 

Não acho que seja por acaso o fenômeno tão zombado de jovens que "fingem" ser japoneses. Onde havia uma aculturação de um povo "caboclo", no sentido racial, havia também a entrada de uma mídia com pessoas de fenótipo similar a este, de cultura simbólica forte, influente; não é um reaching tão grande afirmar que isso deve ter tido um impacto psicológico nos descendentes dos povos originários. 

    Falo de um fenômeno que observei muito de perto, na verdade, mas que pode ser muito particular do Nordeste, na medida em que os indígenas do Norte se reconhecem mais e têm mais amparo culturalmente. Vamos amarrar as pontas dessa enorme tangente.

    Em meados de 2010 era aceitável, numa comunidade primordialmente de classe média (eventualmente mais branqueada) de adolescentes, ser um otaku fedido muito weaboo, ignorante de questões raciais, amante inescrupuloso da cultura pop japonesa. Não me entendam mal, ainda existem pessoas extremamente otakus a céu aberto. Mas na década passada, muitos adolescentes desejavam ser japoneses

    É nesse ambiente que se forma parte da minha subjetividade. Muitas pessoas que viveram isso escolhem hoje zombar e seguir em frente ignorando esse passado vergonhoso. Compreendo. O fetichismo é racismo. As pessoas amarelas, grande maioria brasileiros, sofrem muito diuturnamente por aqui as consequências desse outro tipo de racismo. No entanto, me parece que há mais aí, que precisamos nos sujar nessa vergonha para juntos superarmos esse "trauma". Qual é o plano de fundo racial que eu assumo, de um ponto de vista privilegiado? Grosso modo, ignorando a complexidade dos dispositivos raciais: jovens brancos/pardos/indígenas, não exclusivamente racializados como negros, que de alguma forma pudessem "ser confundidos" com leste-asiáticos.

    Rumo à minha perspectiva atual: o apagamento é uma matiz do que eu vou chamar aqui de "fetichismo otaku" no Brasil. Ele não explica a maioria dos casos, mas é um elemento que vem sendo ignorado, acho eu, nas discussões sobre fetichismo otaku; até porque a maioria destas discussões são travadas no contexto estadunidense.

    Nos meus anos de juventude, essa nuance fetichista estava muito presente, mas felizmente não só ela. O Brasil, a gente sabe, é uma cultura antropofágica. A conclusão aqui é que eu não penso que eu, o meu ciclo próximo que vivenciou coisas muito parecidas, e outras pessoas (parentes?) que também o viveram devessem se envergonhar de serem "unapollogeticly" influenciados pela mídia japonesa, de forma inapagável. Evidente, não podemos repetir comportamentos fetichistas que foram vistos. Mas, creio que podemos tomar essa inspiração no peito e tanto vivê-la de forma mais respeitosa como transformá-la, tendo vista da necessidade de retomadas identitárias do nosso povo eminentemente indígena. 

    Como é bom tirar essas palavras do peito. Então... entende por que Mipibu Nexus?

    E olha que esse nome bobinho me veio à mente naturalmente...nem tava pensando nessas dificuldades todas que se impõem...

    Ora são referências inevitáveis (historicamente, na minha história), ora são as referências ancestrais (da nossa história?), e pretendo falar de muitas coisas que me interessam, somente para abrir o coração com o texto e numa linguagem que me agrada muito mais: para tomar algum cuidado com o pensamento. 

    Estou cansada já :( nos próximos desenvolverei sobre as referências sz.

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